Volume 64, NĂºmero 3Maio/Junho de 2013

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De acordo com o Enûma EliŠ, a história da criação da Era do Bronze da Babilônia, o mundo começou quando o deus Marduk criou uma plataforma de terra e grama nos pântanos primordiais onde todas as terras eram mares. Até a metade do século passado, esse lugar ainda existia.

s pântanos já ocuparam 20 mil quilômetros quadrados (7.700 milhas quadradas) do sul do Iraque e em novembro e outubro de 1967 tive o privilégio de passar mais de um mês lá; era um dos lugares menos explorados do mundo. Em alguns momentos é difícil de acreditar, mas o Iraque de hoje já foi o centro do universo eurasiano. A Mesopotâmia e a Suméria foram os berços da civilização e se desenvolveram ali há milhares de anos.

Mesopotâmia significa "terra entre rios" e os rios são o Tigres e o Eufrates. Dentro de sua confluência há terras pantanosas vagas com lagos, canais, rios, ilhas, florestas e grandes campos de junco alto, que podem ser até três ou quatro vezes maiores que uma pessoa. Alguns dizem que o Jardim do Éden ficava aqui.

Além das terras pantanosas, ao longo de sua encosta, há traços visíveis das cidades sumérias de Uruk, Ur e Larsa. Estas civilizações morreram e desapareceram, mas com uma exceção: Dentro dos pântanos, viviam pessoas que se denominavam Ma'dan, algo como "habitantes das planícies"; em inglês eles são chamados de árabes do pântano.

Embora eles falem dialetos arábicos, muitos dos Ma'dan podem ser descendentes diretos dos sumérios. A população estimada durante minha visita era de 250 mil a 500 mil habitantes.

Eu soube que o último escritor a ter permissão para visitar os pântanos foi Wilfred Thesiger, autor das obras Marsh Arab e Arabian Sands da década de 50, por isso, esperava ter dificuldade para obter a permissão para ir até lá. De fato, demorou três semanas e os documentos necessários foram emitidos graças à intervenção do próprio prefeito de Bagdá. O governo iraquiano já estava ameaçando drenar os pântanos e consequentemente acabar com um modo de vida antigo. Isso apenas aumentou meu desejo de ir até lá.

Meu plano original era remar com um guia em uma grande canoa para pântanos desde a pequena vila de comércio de Majar al-Kabir. Para deixar tudo mais simples, tentei limitar a bagagem a mim, um guia, minhas câmeras, duas escopetas e, caso enjoasse da comida local, 200 latas de sardinhas norueguesas que, inexplicavelmente, encontrei em uma mercearia local.

Entretanto, as autoridades insistiram para eu levar um soldado armado junto, para proteção, segundo elas. Eu sabia que os Ma'dan odiavam qualquer um que parecesse ser autoridade do governo e sabia que o solado poderia dificultar meu trabalho.

A canoa teve que ser trocada por um barco motorizado de fundo plano acompanhado por um barqueiro-guia-intérprete, Ibrahim, que havia crescido nos pântanos e aprendido inglês em uma fábrica americana de açúcar. Nosso soldado era um veterano com um semblante gentil e enrugado e um rifle antigo. Usando um uniforme marrom remendado, ele não era nem um pouco intimidador.

Nesse momento, Ibrahim mencionou que ele precisaria de um barqueiro assistente, mas eu o cortei dizendo que eu também queria um operador de câmera assistente e que talvez o soldado quisesse um imediato... Felizmente, isso o fez cair na gargalhada e, dessa forma, nós saímos de Majar al-Kabir e fomos para o rio barrento ao sul em direção aos pântanos.

Eram as primeiras horas de uma linda e agradável manhã de primavera, por isso, eu pensava que já havia me livrado das frustações causadas pelas autoridades iraquianas e me sentia feliz e empolgado com as aventuras à frente.

Mas a euforia não durou muito. Logo alguns momentos depois, vimos uma nuvem de poeira atrás de nós na margem do rio e um jipe correndo em nossa direção, o motorista estava buzinando. Um homem no jipe se levantou acenando freneticamente. Paramos na margem e esperamos.

O jipe parou e um homem moreno de aparência jovem desceu. Ele usava um terno preto barato, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos. Sem hesitação, explicação ou satisfações, ele disse “Salaam alaykum”, embarcou em nosso barco, sentou-se e acendeu um cigarro.

Fiquei olhando para ele, sem fala. O homem estava usando o uniforme casual da temida polícia secreta iraquiana e tinha uma pistola por baixo do paletó. Obviamente, ele iria nos acompanhar. Eu sabia que era inútil, mas para me sentir um pouco melhor fingi um ataque de fúria. Ibrahim deu de ombros e sussurrou para mim: "Quando nós chegarmos às vilas, vamos deixá-los nas ilhas com cigarros e comida, daí poderemos pegar nossa canoa e fazer seu trabalho".

A solução do Ibrahim parecia muito boa e devo acrescentar que, após as tensões iniciais, o policial era simpático, quase se tornou meu amigo e me deixou sozinho para fazer meu trabalho.

Quando nosso pequeno grupo se assentou e se conheceu, nós saímos do rio barrento e entramos em um canal estreito, profundo e claro cercado por juncos altos, alguns chegando a sete ou oito metros (23-26'). Todos ficaram em silêncio. Havíamos entrado nos pântanos.

No começo, o barulho do motor e os cantos dos pássaros invisíveis eram os únicos sons. Em seguida, mais adiante, vimos algumas canoas graciosas indo e vindo dos juncos. Estes foram os primeiros Ma'dan que vimos. Eles estavam ocupados coletando juncos, colhendo plantas comestíveis e outros estavam pescando com lanças.

No entanto, alguns viraram seus barcos e foram embora assim que viram a farda entre nós, aparentemente com medo de que nós estivéssemos lá para aplicar a lei iraquiana do serviço militar obrigatório de dois anos.

Depois, de forma peculiar, eles sabiam quem nós éramos, como se os pássaros houvessem contado. Quando perceberam que essa era uma expedição fotográfica de um estrangeiro e não uma batida policial, eles pararam de fugir.

O canal se abriu e entramos em uma lagoa. No lado direito, vimos as cabanas de junco de uma vila, Al-Sahein. Esperamos nos arredores para permitir que o chefe se preparasse para nos receber. Esse era o costume por lá, segundo Ibrahim.

Depois eu descobri que, para os anfitriões, isso significava fazer uma fogueira, enrolar alguns pacotes de cigarros, ferver o arroz, pedir às mulheres para assarem alguns pães, matar uma galinha ou duas ou pescar alguns peixes frescos, varrer a mudhif ou casa de hóspedes e colocar esteiras de junco e tapetes no chão.

Enquanto esperava, tive muito tempo para observar a vila. Cada tenda estava em uma pequena ilha, algumas feitas de pacotes de junco empilhado. A arquitetura é antiga e o formato das estruturas remontam a época dos sumérios.

Canoas grandes e pequenas iam e vinham da vila, remados por homens, mulheres e até crianças pequenas. Dentre as tendas, nadando, boiando ou subindo desajeitadamente nas ilhas estavam os grandes búfalos d'água, sem os quais o povo do pântano não sobreviveria.

Domesticados nesta região pelos sumérios há quase 4 mil anos a.C., estes grandes animais forneceram leite, iogurte, carne, couro e, de extrema importância, esterco para combustível. A parte externa das paredes de junco das tendas possui algumas partes de esterco para secar. Mau cheiro? Nunca senti nenhum odor desagradável.

Finalmente, uma mashuf, uma canoa, veio em nossa direção e um homem idoso pulou a bordo, cumprimentou a todos e disse: "Por favor, vocês são bem-vindos em nossa mudhif". Nós educadamente recusamos, dando a ele a chance de desistir, mas nenhum dos nossos protestos o convenceram.

Quando o idoso insistiu, nós fomos juntos. Com ele nos guiando, fomos até uma das maiores ilhas, dominada por uma grande mudhif esplêndida. O chefe, um shaykh na verdade, embora o governo iraquiano houvesse proibido o título, nos ajudou a sair da embarcação e nos levou para a espaçosa casa de junco.

Nós tiramos os sapatos e entramos. Como esperado, uma fogueira foi acesa e as xícaras árabes cerimoniais de café estavam prontas. Sentamo-nos e começamos a perguntar "Como vai? E a família? E a colheita? E os animais?" várias e várias vezes, segundo o costume.

Nos pântanos, assim como em outras partes do mundo árabe, é costume servir aos convidados um café amargo, não adocicado e muito forte temperado com cardamomo. Normalmente, ele é servido por um homem encarregado de manter as xícaras cheias. Uma dose pequena é servida por vez e normalmente você bebe três doses antes de indicar, balançando a xícara, que está satisfeito. Nessa hora, seus nervos já estarão formigando por causa da cafeína.

Nosso anfitrião também colocou um pacote cheio de cigarros na frente de cada convidado, um gesto excepcionalmente generoso. Depois do café, serviram um chá bem doce em copos, depois mais chá e fumamos sem parar enquanto a conversa começava, parava e começava novamente.

Estes longos períodos de silêncio nunca incomodaram os Ma'dan. Acho isso bem interessante. Havia um fluxo contínuo do homens indo e vindo o tempo todo; as mulheres ficavam espiando do lado de fora da entrada.

Uma bandeja enorme com arroz cozido foi trazida, seguida por outra bandeja com peixe frito e tigelas de sopa. As tigelas eram passadas entre todos para que cada um tomasse um pouco. Em seguida, parte da sopa foi derramada sobre o arroz e tigelas de leite fermentado de búfalo d'água foram passadas.

Nós e alguns homens de importância comemos primeiro sentados em círculo com as pernas cruzadas nas esteiras de junco. Você come tudo com a mão direita. O jeito é moldar e amassar uma pequena bola de arroz na palma da mão e depois colocá-la na boa elegantemente com seu polegar. Percebi que os homens discretamente olhavam como eu desajeitadamente levava as pequenas bolas de arroz à boca com meus dedos. Uma porção suficiente para causar vergonha sempre caía na esteira. Isso causava alguns risos, mas a maioria estava ocupada comendo.

Nessa ocasião, nosso agradável anfitrião não comeu ou sentou-se, ele apenas ficou nos olhando pronto para ajudar. Ao notar minha dificuldade, ele prestativamente pediu uma colher que, para o espanto de todos, eu recusei. Ibrahim, tentando me animar, disse "Quando menos perceber, você será um de nós".

Terminamos e saímos para lavar as mãos. Um sabonete foi passado de um a um junto com uma jarra de água para enxaguar as mãos. No mudhif, nossos lugares em volta da comida foram logo ocupados por mulheres, crianças e outros da classe mais baixa da sociedade dos Ma'dan. Em instantes, a montanha de comida desapareceu.

Todas as refeições foram servidas em uma camada de arroz. Normalmente, seriam servidos alguns vegetais cozidos juntamente com outras comidas. Alguns temperos eram usados e eu devo dizer que a comida sempre foi saborosa. Talvez isso tenha a ver com o fato de eu sempre estar com fome.

O principal motivo para isso talvez fosse o seguinte: quando uma pessoa mais velha terminava sua refeição, normalmente na metade do tempo que eu levava, ela se levantava seguida por todos os outros. O protocolo normal, mas eu sempre acabava meio satisfeito.

No entanto, durante minha estadia com os Ma'dan me senti mais saudável do que nunca. Quanto aos Ma'dan, não vi evidências de doenças, conforme mencionado nos relatos de Thesiger e de outros. É claro que peixe, arroz e vegetais acompanhados por carne de vez em quando aliados a uma vida fisicamente ativa significam uma dieta saudável. Mas há o tabagismo dos homens...

Nosso almoço, como sempre, foi seguido de chá doce, mais cigarros e conversa. Em ocasiões como essa, é preciso fumar mesmo se você não o faz porque faz parte do ritual de cortesia, como beber o café e o chá.

As conversas raramente eram sobre vida pessoal, mas o anfitrião conseguiu descobrir o motivo de nossa viagem, o que reafirmou para ele nosso propósito inocente. As palavras viajam muito mais rapidamente do que nossos barcos nos pântanos.

Nós continuamos poucas horas antes de escurecer, não porque queríamos, mas para evitar que o shakyh fosse à falência. Ele já havia gasto uma pequena fortuna para nos entreter, mas o costume o obrigava a continuar se nós permanecêssemos. Nós não pegamos os cigarros oferecidos e eu deixei algumas latas de sardinha norueguesa como agradecimento.

Praticamente toda a vila se voltou para acenar enquanto nós saíamos desta pequena Veneza mesopotâmica. Foi uma experiência reconfortante.

Nossos dias foram todos assim. Passamos por leitos de junco, florestas de juncos, canais, lagoas e lagos. Perto de seus assentamentos, jovens e idosos estavam sempre colhendo juncos, plantas comestíveis e pescando com lanças ou redes.

As pessoas que viviam próximas ao continente trocavam ou vendiam os peixes e as esteiras feitas de junco. Estes eram os únicos meios pelos quais eles obtinham bens essenciais de fora: madeira para construir, betume para vedar os barcos, açúcar, sal, munição, tabaco e alguns tecidos.

Onde não havia pessoas, havia patos, pelicanos, garças e uma infinidade de pássaros que não reconheci. Manadas de búfalos d'água vagavam ou nadavam despretensiosamente pela água onde fosse raso o suficiente.

Conforme nós navegávamos de um local a outro visitando e observando, ficou muito claro para mim que os Ma'dan habitam um mundo onde "todas as terras eram mares" e que os Beduínos viveram em um local onde todas as terras eram areia; as semelhanças entre os Ma'dan e os nômades do deserto eram consideráveis. Passei algum tempo com os Beduínos da Arábia Saudita e, todos os dias, alguns detalhes do modo de vida dos Ma'dan faziam eu me lembrar deles.

Um dia, chegamos à vila de Al-Chiddee. Cães anunciaram nossa chegada: Aqui, cada casa tinha seu cão de guarda e eles estavam sempre alertas a qualquer hora do dia, especialmente à noite. Os visitantes são avisados para não entrarem nas casas sem estarem acompanhados por um membro da família para acalmar o cão ou sem carregar um bastão bem pesado.

Nosso barqueiro era parente do chefe da vila, por isso, dessa vez nós fomos diretamente para a casa dele sem esperar do lado de fora da vila. Este simpático velho homem do pântano sabia que nós estávamos a caminho e tinha tudo preparado. Usando um bisht ou manto local e um ghutrah (turbante) ele e toda sua família nos esperavam do lado de fora.

Embora as mulheres tivesse maior liberdade para serem amigáveis aqui do que em outras partes do mundo árabe, esta foi a primeira e única vez que cumprimentei as mulheres da família. A jovial esposa do chefe sentou na mudhif conosco em alguns momentos enquanto desfrutávamos de outro banquete com frango como prato principal desta vez. Normalmente, era um ou outro e cordeiro em algumas vezes.

Por termos sido convidados a permanecer nesta mudhif por mais de uma noite, o chefe da família descarregou tudo de nosso barco e colocou toda a nossa bagagem e mantimentos na mudhif. Eles não queriam que nada fosse roubado enquanto fôssemos seus hóspedes, ele disse; não que isso fosse mesmo acontecer.

Eu descobri quais seriam os meus maiores problemas no pântano: falta de sono e falta de privacidade. Eu precisava dormir porque eu levantaria cedo para tirar fotos e os dias nos pântanos eram longos.

De jeito nenhum! Com convidados ilustres, nenhum dos homens da vila queria voltar para casa para dormir. Eles poderiam fazer isso depois que nós fôssemos embora. Por isso, as festividades e as conversas se estendiam até as duas ou três horas da madrugada, quando eu dormia sentado em meu saco de dormir.

Às cinco da manhã, eu acordava juntamente com o sol. Nosso anfitrião estava acordado organizando o café da manhã. Eu saí pela entrada da frente com meu equipamento de fotografia e com o cão de guarda, amigável agora, me seguindo. Pela primeira vez entendi o que as pessoas chamavam de a "atemporalidade" dos pântanos. Havia um brilho rosa escuro na neblina da manhã que cobria a água.

Nada se mexia. Uns sapos coaxavam ao longe, mas não havia outro som. As tendas de junco e as ilhas estavam refletidas nitidamente na água. No horizonte, eu conseguia ver vagamente os juncos altos e, logo acima, uma revoada de pelicanos indo de lugar nenhum a nenhum lugar.

Então, veio um leve som de movimento. Uma mashuf pesqueira apareceu nos juncos com sua proa pontuda e elegantemente curvada cortando a água. O pescador acenou para mim e eu acenei de volta. Mas o feitiço não foi quebrado. Os búfalos d'água começaram a se mover e alguns entraram calmamente na água. Fumaça começou a surgir de algumas das casas de junco; algumas vozes baixas podiam ser ouvidas. Eu estava mexendo na minha câmera como se estivesse em transe.

Dia após dia, minha vida foi se encaixando em um uma espécie de padrão. Antes (algumas vezes depois) do café da manhã, Ibrahim e eu pegávamos uma canoa emprestada e remávamos por conta própria; eu tirava fotos, falava com pessoas e observava a vida nos pântanos, deixando o exército e a polícia secreta dormindo, comendo, bebendo chá, café e fumando o dia todo. Para todos os fins práticos, eles deixaram de existir.

Quando o sol estava muito alto e a luz ficava brilhante demais para tirar uma boa foto, nós entrávamos no barco e seguíamos para o próximo local caçando alguns patos para nos alimentar. Eles eram abundantes e um bom complemento para nossa dieta, além de presentes para nossos anfitriões.

Navegando pelos pântanos, encontrei pessoas com um afiado senso de humor e quando nos sentávamos à noite, elas sempre tiravam um sarro de minhas tentativas para fazer as coisas ao seu modo e de falar árabe. Alguns homens me ensinaram algumas palavras rudes. Sempre que eu as usava, elas quebravam imediatamente o gelo. Eles sempre caiam na gargalhada.

Um dia, nós quase acabamos envolvidos em uma discussão familiar que poderia ter se tornado uma briga violenta entre uma vila e outra. Talvez isso tenha acontecido. Eu nunca saberei.

Ao chegar em uma pequena vila nos pântanos centrais, nós logo sentimos que algo estava errado. As cordialidades básicas como servir café e chá já quase foram esquecidas. Enquanto isso, canoas iam para lá e para cá e havia uma agitação geral, evidente até mesmo para mim, um forasteiro.

Durante nossa irrequieta e pequena refeição, Ibrahim descobriu que uma garota daquela vila havia se casado com um garoto de um vilarejo próximo na noite anterior; um casamento arranjado. A garota tinha um namorado de infância em sua vila natal que ela amava e queria se casar, mas os pais dela insistiram na união arranjada.

Segundo Ibrahim, a garota participou da cerimônia de casamento, mas fugiu na noite anterior de seu novo marido para se refugiar com seu namorado.

Isso significava uma grande humilhação para a família. Alguns búfalos, dinheiro e provavelmente outras coisas seriam consideradas como forma de indenização, caso ela não voltasse. Os dois conselhos da vila se reuniriam para discutir a questão, mas, no meio tempo, as armas estavam sendo preparadas. Isso quer dizer que problemas acontecem em todos os lugares, até neste "paraíso".

Nos aconselharam a partir. Então, o fizemos. Nunca descobrimos como esta crise foi resolvida.

Provavelmente, a maior maldição dos povos do pântano foram os javalis gigantes que habitavam o local aos milhares. As feras mal intencionadas sempre atacavam sem aviso, mesmo quando não eram provocadas. Quase um terço dos ferimentos e mortes nos pântanos foi causado por estas criaturas, que os árabes dos pântanos, assim como os muçulmanos, não podem comer.

Pelo fato de nada deixar os árabes do pântano mais gratos do que matar alguns javalis, nós procurávamos por eles todos os dias. Além disso, eu queria muito ver um, mesmo se não conseguíssemos matá-lo. Vimos pegadas de javali, os escutamos à noite, mas não conseguimos encontrá-los até a nossa última noite nos pântanos.

Nós havíamos viajado o dia todo em pequenas canoas sob mata e juncos pesados onde os porcos foram avistados no dia anterior. Não achamos nada e no fim da tarde decidimos voltar para o barco.

À minha esquerda, na ponta de uma área alagada rasa, vi alguns búfalos se mexerem e avisei o Ibrahim. Assustado, ele parou e disse "Isso não é búfalo. Isso é javali". Havia seis deles, três eram tão grandes que poderiam ser confundidos por búfalos no escuro.

Ibrahim preparou sua arma; um homem do pântano local, que nos acompanha, fez o mesmo. Peguei duas câmeras e uma lente de 300mm.

"Eles estão se preparando para atacar", Ibrahim sussurrou e engatilhou sua arma. Apoiei minha câmera no ombro do Ibrahim e comecei a tirar várias fotos embaçadas sem tirar os olhos das suas horrendas presas curvadas. Estava tão escuro que percebemos que seria loucura tentar atirar se não fosse para nos defender. Também estava muito escuro para tirar fotos.

Tudo o que pudemos fazer foi esperar e não se mexer. Então um dos javalis bufou e todos se viraram e foram para os juncos.

Todos suspiraram de alívio e eu percebi que estava trêmulo, apavorado, na verdade. Este breve momento de susto ficou marcado para sempre na minha memória. O incidente também serviu para eu me lembrar de que não existe paraíso, embora acreditasse em alguns momentos nos pântanos que eu o havia encontrado.

Foi um privilégio imenso poder compartilhar de um estilo de vida antigo que não existe mais e eu nunca me esquecerei da generosa hospitalidade e da bondade do povo Ma'dan.

O norueguês Tor Eigeland (www.toreigeland.com) viajou durante toda a sua vida como um escritor e fotógrafo freelancer e contribuiu para a Saudi Aramco World e outras publicações por décadas Hoje, em seu lar na França, ele está trocando o fotojornalismo pelos livros, sendo o All Lands Were Sea o primeiro, mas ele jurou nunca se livrar de suas câmeras.


 

This article appeared on page 24 of the print edition of Saudi Aramco World.

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