Volume 64, Número 1Janeiro/Fevereiro de 2013

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Kuala Lumpur, capital e cidade mais populosa da Malásia, com quase 2 milhões de habitantes, é agitação constante em meio a shoppings, restaurantes e galerias do Bukit Bintang "Star" Walk. Muitas dessas construções datam da década passada. "Este realmente é o melhor momento para ser um artista na Malásia", afirma a escritora, fotógrafa e atriz Bernice Chauly, de 43 anos.

A música toca e o país também. Em um videoclipe de hip hop gravado na capital da Malásia, Kuala Lumpur, é possível ver chineses e malaios em uma loja de chá e em uma mesquita, tâmeis em uma loja de joias, multidões visivelmente multiétnicas se misturando nos mercados, escolas, arranha-céus e parques, todos clamando por uma só coisa: Undilah– que quer dizer "Vote" em bahasa, idioma da Malásia. Atual, cativante e apartidário, o vídeo é um testemunho de diversidade e otimismo, que visa estimular o voto antes da eleição geral que a constituição da Malásia marcou para o dia 27 de junho de 2013.

Dentre os rostos que aparecem no vídeo, está o de Nurul Izzah Anwar, de 32 anos, membro do parlamento, guitarrista amadora e fã de Radiohead, a qual tem explorado as ligações de sua família como filha do ex-vice-primeiro-ministro Anwar Ibrahim em uma plataforma de tolerância e igualdade de oportunidades. Estive em sua casa, no bairro arborizado Kiara Mont de Kuala Lumpur, não para falar sobre política, mas sobre as artes contemporâneas e o cenário cultural.

Ela afirma que é uma área em franca expansão, graças às eleições de 2008, que trouxeram uma "grande abertura para mais liberdade de expressão" e que, por consequência, "desataram as artes", conclui. O vídeo "Undilah", concebido pelo produtor musical mais conhecido do país, Pete Teo, é um excelente exemplo de artistas malaios que abraçam a política, "nos colocando em um nível jamais experimentado", conta Nurul Izzah, admirada, que, assim como muitos malaios, costuma ser conhecida pelo primeiro nome.

Inaugurado em 1998, o Museu de Arte Islâmica da Malásia abriga uma das principais coleções da Ásia. Assim como a maioria das instituições de artes da Malásia, o museu é financiado com fundos privados.

Em toda a Malásia, mas principalmente na capital, apelidada de KL, uma nova geração de artistas, músicos, compositores, escritores, artistas, designers e cineastas está redefinindo a cultura e avivando a paisagem com uma impressionante variedade de brilhantismo imaginativo. A energia é palpável. Em uma visita recente, estive em um set de filmagem, assisti a um desfile de moda, participei de aberturas de arte e concertos sinfônicos, assisti a uma peça de teatro experimental sobre a poluição dos rios e fiquei até tarde em um clube de jazz e ainda mais tarde em uma festa memorável na qual um saxofonista e cantor executou músicas para cem ou mais convidados vindos de comunidades criativas e financeiras de KL – tudo isso em 13 dias.

"Este realmente é o melhor momento para ser um artista na Malásia", afirma a escritora, fotógrafa e atriz Bernice Chauly, de 43 anos. "As pessoas querem ser ouvidas e estão dispostas a assumir riscos e usar o próprio dinheiro para fazer o trabalho."

Estava falando com Chauly em uma pausa para o almoço durante as filmagens de "Spilt Gravy on Rice", uma adaptação de uma peça de sucesso escrita pelo famoso ator e comediante malaio Jit Murad. O enredo gira em torno do patriarca de uma família e dos planos de seus filhos para administrarem sua herança depois que ele morrer. Embora as falas engraçadas dos irmãos gerem risos, trata-se de um conflito de gerações que também lida com os desafios que a democracia parlamentar de 54 anos e classe média crescente enfrenta na divisão da riqueza, do poder e na busca para tornar sua diversidade étnica uma fonte de força.

Nurul Izzah Anwar, de 32 anos, foi eleita ao Parlamento em uma plataforma de tolerância e oportunidades interétnicas. Ela afirma que as reformas nacionais de 2008 "desataram as artes" na Malásia, "nos colocando em um nível jamais experimentado".

Um estado de maioria muçulmana que se tornou independente do domínio colonial britânico, em 1957, a Malásia alcançou um notável crescimento econômico em um curto espaço de tempo. Quarenta anos atrás, metade da população da Malásia vivia na pobreza e a renda per capita era de US$ 260,00 por ano. Hoje, apenas 4% dos 28 milhões de habitantes do país vivem na pobreza e a renda per capita é de US$ 8.400,00, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. A economia se beneficiou das reservas de petróleo e de um próspero setor de fabricação, bem como – há controvérsias – da exploração de plantações e registros de óleo de palma, por vezes, em florestas tropicais. Mas a alta tecnologia também está crescendo. Uma parte considerável da produção mundial de chips de computador da Intel, por exemplo, é produzida a 400 km ao norte de KL, em Penang, no estreito de Melaka. George Town, um enclave bem preservado de Penang repleto de shophouses (casas com lojas na frente), mesquitas e arquitetura colonial foi nomeado Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (unesco), em 2008, junto com Melaka, a cidade portuária de 600 anos que fica 130 quilômetros ao sul da capital.

Tão forte quanto a economia nas últimas décadas, as artes são em grande parte uma luta solitária, limitada ao apoio principalmente de bancos e alguns outros patrocinadores, de uma modesta ajuda do governo, do compromisso dos cerca de 50 grandes colecionadores de arte e, talvez o mais importante, da genuína paixão persistente do próprio setor criativo.

Há, no entanto, algumas exceções particularmente bem financiadas. Contando com uma das mais impressionantes coleções de seu tipo em toda a Ásia, o Museu de Arte Islâmica da Malásia é mantido de forma privada pela Albukhary Foundation, que é financiada por usinas, portos e empresas de mineração. O ThinkCity de Penang, que promove as artes, a renovação urbana e empresas ambientais e culturais é amparado pelo Khazanah Nasional, o braço de investimentos do governo da Malásia. Além dessas e de algumas outras poucas, a maioria das histórias de sucesso nos segmentos das artes e de design sobrevive com recursos financeiros escassos, normalmente privados, e abundante dedicação, normalmente individual.

Dez anos atrás, Raman Krishna, hoje com 63 anos, recebeu em sua livraria Silverfish Books a visita de um amigo, professor norte-americano de uma universidade japonesa. "Quando ele perguntou onde ficavam os livros de escritores malaios, fiquei tão constrangido pelo fato de ter só uns doze títulos que me envergonhei de me tornar uma editora", confessa Raman dentro da pequena livraria de Bangasar, bairro nobre de KL.

Não foi a primeira vez que Raman fez a vontade de seu Quixote interior para perseguir um alvo. Após 25 anos ganhando a vida como engenheiro de construção, "decidi que já era o suficiente", lembra. "Disse a mim mesmo que deveria começar a fazer algo para realizar meu sonho secreto de abrir uma livraria." Com suas próprias economias, investiu 250.000 ringgit (cerca de R$ 170.000) no negócio e, em 1999, abriu as portas da Silverfish.

Da mesma forma, tornar-se uma editora foi um tiro no escuro. Ele publicou em jornais, na Internet, falou com amigos e clientes que estava planejando editar uma antologia de contos. Em um mês, Raman recebeu 250 inscrições; tantas que, após a primeira antologia ser lançada, ele solicitou envios para uma segunda edição. Mais de 500 histórias foram recebidas.

"Fiquei surpreso com a demanda reprimida de escritores que querem se expressar", declara. Embora seus autores escrevam em inglês, que se tornou o idioma comum entre malaios instruídos de todas as origens, vale ressaltar que, na verdade, o inglês é o terceiro idioma mais utilizado, ficando atrás do malaio e chinês, afirma Raman.

Até agora o seu bestseller é o I Am Muslim, de Dina Zaman, uma narrativa que questiona de forma bem-humorada o retrato dos muçulmanos malaios. Com 12.000 cópias, é um sucesso modesto para os padrões norte-americanos, mas "enorme para um livro em inglês lançado aqui", reforça. Ele observa com clara satisfação que a obra tornou-se leitura obrigatória na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e na Universidade de Chicago.

Há quase 10 anos, Raman Krishna, dono da livraria Silverfish Books, no bairro Bangsar de Kuala Lumpur, determinou que também seria uma editora após sentir-se "constrangido pelo fato de ter só uns doze títulos" de escritores malaios. Desde então, ele editou cerca de 40 títulos de escritores malaios.

Após 10 anos atuando como editora e ter publicado 40 coleções de contos, romances e obras de não ficção, Raman acredita que os autores malaios tornaram-se mais "daltônicos". Segundo ele, se antes os escritores indianos, chineses e malaios costumavam se concentrar exclusivamente em personagens de sua própria etnia, agora cruzam as barreiras étnicas, raciais e religiosas com facilidade. Por exemplo, um contador de histórias de etnia malaia como Rumaizah Abu Bakar agora é extremamente convincente ao descrever as aspirações e frustrações de um chef de etnia chinesa. Da mesma forma, o ex-policial e agora romancista Rozlan Mohammad Noor envolve todos os níveis da sociedade de KL em suas tramas.

"E o mesmo acontece no país como um todo", opina Raman. "As pessoas estão dizendo que não querem ser divididas por raça ou etnia. Não é mais simplesmente uma questão de tolerar diferenças, mas de aceitação.

Paralelamente a esse florescimento literário houve um pequeno aumento no cinema e nas artes visuais. Por volta de 1990, Zarul Albakri, um cineasta de 52 anos, tentou começar a dirigir filmes e parou em sua primeira tentativa. "Simplesmente não havia talento suficiente", lembra. "Agora é diferente; há uma nova geração e muito mais talentos como atores, cineastas, cenógrafos, equipe técnica, o pacote completo", conta admirado. Ele está produzindo "Spilt Gravy on Rice" com o seu irmão mais novo Zahim, de 48 anos, como diretor.

Colecionador de arte e ex-diplomata, o diretor da Galeria Nacional da Malásia, Yusof Ahmad supervisiona a estratégia de exposição dupla do museu, que oferece tanto espetáculos populares para agradar visitantes de primeira viagem como espetáculos especializados.

Quando conheci Zarul, o "talento" que ele tanto admira agora estava ao nosso redor, com os atores, as atrizes e a equipe do filme reunidos na casa de Albakri para uma festa de despedida antes de os tratores chegarem para limpar o terreno que daria espaço a condomínios. Cercada por árvores altas e um exuberante jardim, a propriedade era um reduto, uma das últimas residências unifamiliares do centro de KL. "Filmamos parte do filme dentro e fora da casa para deixarmos um registro à posteridade", afirma Zahim, que explicou que sua mãe, irmão, irmã e ele decidiram vender o lugar depois da morte de seu pai. "É triste, eu sei, mas a festa é uma espécie de vigília no estilo Nova Orleans para celebrar as memórias da família e marcar uma nova fase."

Por acaso, falei com outro diretor de cinema, U-Wei Bin Haji Sarri, na Galeria Nacional de Artes Visuais da Malásia, na qual havia uma exposição de cenografia, adereços, cartazes, storyboards, trechos de vídeos e outros materiais provenientes de seus oito longas. Ex-estudante de cinema da The New School, em Nova York, U-Wei, de 57 anos, teve seu trabalho exibido no Festival de Cinema de Nova York e no Festival de Cinema de Cannes.

Quando nos falamos em julho de 2011, ele estava acabando seu mais recente trabalho, uma versão cinematográfica de A loucura de Almayer (Almayer's Folly), romance de estreia de Joseph Conrad, lançado em 1895 e que narra a história de um holandês caçador de tesouros na Malásia de 1830. Assistimos juntos ao trailer de 10 minutos: lindamente atmosférico, com referências visuais de outro filme rodado na Malásia, "Indochine", com Catherine Deneuve.

Em uma das cenas de U-Wei, malaios e mercadores árabes encontram oficiais navais ingleses a bordo de um veleiro de madeira em um tranquilo rio na selva. "Essa foi uma sequência muito complicada", ri o diretor, revirando os olhos com a lembrança. "Construímos o navio a partir do zero e quando chegou a hora de colocar aquele monstro no rio, eu mesmo acabei tendo de puxar as cordas, para você ter uma ideia."

Mais tarde, entrevistei Yusof Ahmad, diretor da Galeria Nacional, colecionador de arte e ex-diplomata, que introduziu uma série de exposições inovadoras destinadas a atrair pessoas que nunca tinham entrado em um local como aquele. "A Galeria Nacional existe desde 1958, mas quando fui nomeado há mais de um ano, descobri que alguns dos meus amigos não sabiam nem onde a galeria ficava", conta Yusof. "Isso tinha que mudar."

Fundada em 1989 "unicamente para promover o nosso próprio trabalho", explica o pintor Bayu Utomo Radjikin, a galeria Matahati agora prospera o suficiente para ajudar a financiar programas de estágio tanto para artistas malaios no exterior quanto para outros artistas do Sudeste da Ásia, na Malásia.

O diretor do museu escolheu uma estratégia de duas vertentes: entretenimento para as massas, baseado em temas abrangentes e populares como mãe e filho, Ramadã e devoção a Deus, complementado por exposições mais focadas, incluindo exibições de filmes de U-Wei, que apelam para os conhecedores de arte alternativa. Até hoje essa investida parece estar valendo a pena.

"Na exposição sobre mãe e filho, fomos inundados com a presença de pessoas que nunca tinham ido à galeria", lembra com orgulho. "Foi a exposição mais visitada que já tivemos."

Embora a Galeria Nacional não seja tão conhecida quanto poderia – ou devesse –, não é por falta de talento. A Malásia é repleta de artistas e galerias privadas.

Valentine Willie é um dos negociantes de arte pioneiros no país, e certamente na região do Sudeste Asiático, nas galerias de curadoria em KL, Cingapura, Yogyakarta e Manila. Ele é bisneto de um caçador de talentos de Bornéu e pode-se dizer, no mínimo, que sua trajetória de vida é sempre repleta de surpresas. Willie estudou em Londres e depois advogou por lá antes de voltar à Malásia, há 16 anos, para abrir sua primeira galeria.

"Quando comecei, acho que tínhamos quatro galerias em KL. Hoje há mais de 20 vendendo arte séria, não uma simples decoração de parede", alfineta. "Esse crescimento indica não apenas a multiplicação da riqueza dos compradores, mas também a sofisticação madura dos mesmos."

Willie é um árduo defensor da ideia de transformar a antiga posição de séculos da Malásia em um grande portal comercial aproveitando sua vantagem estética. "A geografia é a característica marcante do sudeste da Ásia", conta durante uma conversa numa cafeteria ao lado de sua galeria em Bangsar. "Quando se é um pequeno pedaço de terra no meio do oceano, não se pode impedir que as pessoas se aproximem de você", continua. "Se você não pode se defender, então por que tentar? É melhor dizer 'seja bem-vindo, pegue o que quiser' e deixar o resto acontecer naturalmente. Esse é o nosso entendimento. Recebemos todos muito bem e nos baseamos nas influências estrangeiras para gerarmos nossa própria arte e cultura."

"Há uma nova geração e muito mais talentos", conta o produtor de cinema Zarul Albakri, à esquerda, cujo filme, o recente "Spilt Gravy on Rice", surge na família cujas tensões entre as gerações são metáforas para a cultura da Malásia. Em seu estúdio, ele conversa com o colega produtor A. Samad Hassan.

Willie sugere que a culinária deliciosa do país é um exemplo perfeito de seu ponto de vista, lançando sem delongas uma versão maravilhosa de sua eclética harmonia de três partes. "Temos os sabores da culinária do sul da China e a riqueza das especiarias indianas nos ricos pratos de coco da cozinha malaia", conclui, deixando-nos com água na boca.

Há poucos minutos dali, no bairro suburbano Petaling Jaya, outro dono de galeria está dando mais um passo nessa área. Shalini Ganendra, também advogada, graduada no Reino Unido, virou negociante de arte, inaugurou uma série de palestras em que autoridades internacionais sobre arte, cerâmica, fotografia, têxteis e design compartilham suas opiniões e experiência com artistas locais, curadores, colecionadores e estudantes. Apesar da maioria esmagadora de efeitos positivos em se promover essas pontes culturais de leste a oeste, Ganendra reconhece uma certa quantidade de riscos.

"O desafio dos artistas da Malásia é não se tornarem excessivamente inspirados no ocidente, não copiar estilos ocidentais", alerta. Willie expõe sua preocupação. "Os artistas daqui não têm autoconfiança suficiente", afirma. "Acham que a sociedade ocidental vai dizer quem é bom ou quem é ruim, sendo que eles deveriam questionar os padrões por si mesmos."

Mas um grupo de artistas com autoconfiança de sobra – suficiente para compartilhar sua boa sorte com dezenas de artistas emergentes – é um caso à parte. Em 1989, recém-graduados pela Universiti Teknologi mara, a maior universidade do país, os cinco colegas se uniram para formarem o Matahati, expressão malaia que significa "olhos da alma".

"Formamos o grupo apenas para promover o nosso próprio trabalho", explica Bayu Utomo Radjikin, de 42 anos, enquanto estudantes voluntários organizam pinturas para uma estreia que acontecerá na galeria House of Matahati, que ocupa dois andares acima de uma loja de impressão em uma rua movimentada de Ampang, bairro de KL. Cerca de 10 anos após complementarem suas rendas pintando cenários para produções de cinema, teatro e televisão, eles estavam tão bem financeiramente que decidiram dar algo de volta a uma geração mais jovem e, assim, criaram uma rede pan-asiática de artes.

Além de custear a viagem de artistas malaios iniciantes a Yogyakarta e Manila, o Matahati usa uma parte da renda da galeria para trazer pessoas dessas cidades para intercâmbios de um mês de duração em KL. O grupo também oferece um estúdio para artistas malaios, os apresenta a galeristas e colecionadores e, finalmente, expõe seus trabalhos. Artistas de lugares distantes como o Brasil e Japão são convidados a estagiarem aqui para que possam interagir com pintores e escultores nativos. O grupo também patrocina um programa que envia artistas malaios a escolas para elaborarem projetos de colaboração com os alunos e apresentá-los à arte contemporânea.

"Vejo a Malásia mais como uma salada do que como um caldeirão", diz o compositor Johan Othman da Universiti Sanis Malaysia, em Penang. "Você consegue ver o alface, o tomate e todos os ingredientes variados. Eles não estão misturados, mas separados.

Comparados à ascensão gradativa do Matahati, os jovens designers da Ultra, todos com 20 e poucos anos, de repente se tornaram a sensação do momento, passeando pelo crescente negócio de "moda ética", que faz questão de usar materiais reciclados. Em apenas três anos, desde o lançamento do selo em 2009, a Ultra já levou o prêmio inovação de 2011 do Ethical Fashion Forum, em Londres e empolgou a imprensa de moda em Paris. Apesar de aclamada na Europa, os estilos elegantemente minimalistas da marca remetem unicamente à Malásia.

Conheci o designer chefe da empresa, Tengku Syahmi, 22, em um desfile realizado por designers de moda em ascensão que foi realizado no MAP, um espaço novo para exposições e eventos em Publika, um complexo de uso misto, que combina apartamentos, galerias, restaurantes, lojas e escritórios em Hartamas, um bairro de KL de paisagem montanhosa. Sob o som de música techno, enquanto modelos com babados desfilavam ao longo da passarela, recebi um convite de Syahmi para visitar o estúdio de design no dia seguinte e é claro que aceitei.

Descobri que o atelier da Ultra ficava um andar abaixo do MAP. "Não olhe muito de perto os projetos da nossa próxima coleção", adverte sorrindo a cofundadora da Ultra, Anita Hawkins, enquanto eu olhava os esboços colados nas paredes. "Devem ser mantidos em segredo." Mas o estúdio totalmente sem glamour é tão apertado – com quatro ou cinco estilistas debruçados sobre mesas em um espaço do tamanho de uma sala de aula do ensino fundamental – que realmente é inevitável olhar para os desenhos. Eles literalmente cobrem as paredes.

"Toque isso", sugere Hawkins, de 26 anos, convidando-me a passar a mão em um vestido com capuz branco pendurado em uma arara de vestidos, casacos e cachecóis. Parece veludo. "Aposto que você nunca adivinharia que o tecido é feito de polpa de madeira", brinca, com um sorriso irônico. E ela está absolutamente certa. Preciso confessar que polpa de madeira nunca passou pela minha cabeça.

"E essa aqui?", pergunta, segurando uma roupa chique preta. "Tampas de garrafas de plástico recicladas", declara, deleitando-se com o meu espanto. "Mas por que tem textura de lã?", pergunto. "Também é segredo", responde.

A ideia por trás da Ultra e de outras marcas de moda ética é montar um contra-ataque à cultura de consumo descartável e demonstrar que materiais reciclados, sustentáveis, podem ser usados para compor estilos sensacionais. "Queremos que as pessoas sejam mais conscientes do que estão consumindo", afirma Hawkins, "para que comprem aquilo que precisam, não o que veem pela frente." É estranho ouvir isso de alguém cujos produtos são destinados à venda. Então pergunto se ela não tem medo de que os consumidores comprem menos. "Talvez", responde, "mas se estão dispostos a pagar mais por menos itens de boa qualidade, ainda podemos ter lucro." E, de fato, vários meses depois de minha conversa com Hawkins, a Ultra parou a produção por completo, pelo menos por enquanto, para se concentrar em projetos de confecção de roupas no estilo "faça você mesmo" para serem baixados pela Internet. Hawkins e outros também visitaram escolas no Reino Unido e outros lugares em busca de apoio para a moda reciclável e design sustentável.

Assim como os projetistas da Ultra, que viajam para Londres, Paris, Xangai e outros centros de moda para promoverem suas criações, a nova geração de artistas, escritores, músicos, compositores e dançarinos segue um antigo padrão de migração no exterior e depois retornam à Malásia para expandirem os horizontes culturais domésticos.

"Historicamente, o país sempre foi uma espécie de encruzilhada, seja para o comércio internacional ou para a rota de especiarias", observa Hardesh Singh, 35 anos, que atua como compositor e produtor de programas de vídeo para a Internet. "As pessoas saem à procura de mercadorias para trocarem e acabam levando conhecimento e cultura. Isso faz parte do nosso DNA cultural, ir para o exterior por um tempo e voltar depois de ter saciar o seu desejo de viajar. Cada pessoa contribui quando pega uma semente de um lugar e planta na sua terra natal."

Advogado em Londres, negociante de arte pioneiro e bisneto de um caçador de talentos de Bornéu, Valentine Willie agora administra galerias em quatro países. O crescimento de suas galerias e de outras 20 mostra uma "sofisticação madura", diz ele.

Por força do destino, Singh e eu refletimos sobre intercâmbios culturais, enquanto tomamos um frappuccino e um latte de chá verde com baixo teor de gordura em um Starbucks. (A franquia é outro exemplo de estrangeiro recebido de braços abertos na Malásia.) Ele explica que a música sempre foi sua paixão e que, por isso, depois de se formar na faculdade com especialização em engenharia de telecomunicações, foi morar em San Francisco no final dos anos 1990 para estudar as ragas indianas. Voltando a KL por volta de 2001, Singh começou a compor trilhas sonoras de filmes e agora ele dirige um estúdio de gravação e unidade de produção digital que trabalha com tudo, de jingles publicitários a música clássica. Um de seus empreendimentos, uma rede de canais de vídeo da web, é uma tentativa de driblar a televisão controlada pelo governo e dar voz a uma mídia mais independente. Entre as postagens – com a colaboração de bandas de metrô – há uma sátira política semelhante ao norte-americano "The Daily Show with Jon Stewart", coorganizado pelo ator de 31 anos e comentarista político Fahmi Fadzil; uma novidade muito agradável.

Singh lamenta que a música malaia não seja tão conhecida fora do país. "Não temos na Malásia uma daquelas vozes inconfundíveis que qualquer pessoa identificaria como sendo deste caldeirão cultural", reconhece um pouco melancólico. "Não nos saímos tão bem quanto a Tailândia e as Filipinas – e certamente estamos muito aquém da África e do Brasil – em inventar um som inigualável."

A exceção de destaque é a composição clássica contemporânea, acrescenta, animando-se. "Estamos fazendo bonito lá fora, com orquestras na Alemanha, Reino Unido, Áustria e em outros lugares." Apesar de Singh estar desapontado com o fato de a maioria dos malaios não ter ideia sobre essa crescente aclamação, os grupos de compositores da Malásia recentemente gravou um cd com peças de 10 dos seus membros para darem maior exposição às suas gravações.

Um membro do grupo, Johan Othman, de 42 anos, é professor formado pela Yale e agora ensina música e composição na Universiti Sains Malaysia, em Penang. Malaio muçulmano, Othman aponta a mistura cultural de Penang em relação ao seu trabalho; estreou uma ópera baseada em um clássico da literatura persa do século 12, "A Conferência dos Pássaros", do poeta Attar, que foi cantada em Inglês por artistas chineses e indianos. Outras composições foram inspiradas em óperas chinesas e na mitologia hindu. Sua próxima ópera, ainda sem título, é baseada no épico hindu "O Ramayana".

Enquanto tomamos chá no aclamado E&O Hotel, em Penang, com a paisagem ao longe composta pelo vapor dos navios que navegam pelo Estreito de Malaca – a rota marítima mais movimentada do mundo – Othman fala sobre a campanha equivocada do governo para eliminar as diferenças étnicas ao invés de abraçá-las e como isso afeta o seu papel como compositor. "Não existe essa coisa de identidade global malaia, seja na música ou em qualquer outra área", protesta. "Há várias identidades e cada uma possui uma característica única.

Vejo a Malásia mais como uma salada do que como um caldeirão", continua, rindo da imagem. "Você consegue ver o alface, o tomate e todos os ingredientes variados. Eles não estão misturados, mas separados.

Penang usa a sua diversidade étnica e religiosa como um diferencial. A população adora dizer que Jalan Masjid Kapitan Keling, a rua de 800 metros de comprimento no centro do bairro histórico, é conhecida como a Rua da Harmonia porque possui duas mesquitas, um templo hindu, vários templos chineses e uma igreja anglicana; há também uma igreja católica romana nas proximidades.

"Somos mais do que malaios, chineses e indianos", declara Joe Sidek, organizador do festival anual de artes, que acontece em julho. "Também somos birmaneses, armênios, tailandeses, gujaratis e europeus. Penang é cosmopolita desde o século 17 e nunca houve nenhuma segregação aqui ", insiste.

Afastada da costa oeste da península da Malásia, a ilha Penang "é cosmopolita desde o século 17", afirma Joe Sidek, empresário local e organizador voluntário do festival de artes.

Nos últimos anos, uma educadora de artes chamada Janet Pillai colocou em prática uma iniciativa de conscientização que permite que crianças com idade entre 10 e 16 anos possam captar a plenitude das comunidades interdependentes e se apresentarem com base nas tradições, histórias orais, arquitetura, música, lendas e ofícios que elas descobrem dentro de si mesmas. Durante um período entre seis e oito meses, grupos de cerca de 30 estudantes pesquisam sobre as pessoas e a história de um bairro de Penang. Fazendo uma analogia com o crescimento de uma árvore, Pillai resume a aventura meio antropológica e meio teatral como "uma espécie de viagem acadêmica para colocar para fora algumas raízes finas e sugar um pouco da água da comunidade." Converso com Pillai em um pequeno centro de tradição que ela criou em um anexo do resplandecente Khoo Kongsi, um complexo chinês de 1906 com um telhado de templo característico, dragões de porcelana pintados esplendorosamente, ornamentação dourada esculpida e estátuas de leões que guardavam o pátio.

Durante os primeiros quatro meses dos projetos de Pillai, as crianças realizam pesquisas, gravando lembranças narradas em malaio, inglês e chinês por um historiador, reunindo canções, música e som ambiente com a ajuda de um engenheiro de som, examinando edifícios vernaculares acompanhados por um arquiteto, aprendendo a fazer marionetes com um manipulador de marionetes tradicionais e a talhar, com um mestre artesão. Após a fase de pesquisa, elas montam uma produção, escrevendo um texto, compondo músicas e letras baseadas nas memórias orais, construindo cenários, desenhando figurinos. Por último, fazem uma série de apresentações para as comunidades, destacando sua cultura e reforçando os vínculos das crianças com a sua própria história.

"O que é interessante é a forma como os alunos contemporanizam as tradições", observa Pillai. Eles transformam lendas antigas em histórias em quadrinhos ou jogos de videogame, por exemplo, ou oferecem iPads de papel junto com 500.000 ringgit em notas de mentira e outros presentes para serem queimados em um ritual para acalmar os espíritos durante o festival Hungry Ghost. Pillai ajudou a despertar o interesse da região pelo teatro infantil e agora programas semelhantes estão em andamento na Tailândia, Cingapura, Indonésia e nas Filipinas.

Do outro lado do escritório de Pillai, na Cannon Street, paro para tomar um refrigerante com Narelle McMurtrie em sua galeria de arte/loja de artesanato/cafeteria. Desde que saiu de Sidney e foi para a Malásia, há 26 anos, a australiana animada transformou diversas shophouses em apartamentos turísticos e abriu dois hotéis de luxo na Ilha de Langkawi, que fica perto de Penang. A maior parte do lucro dos hotéis serve para financiar um abrigo de animais que McMurtrie fundou na ilha em 2004; a renda obtida das operações de Penang financiam as residências para artistas.

McMurtrie ressalta que, diferente de grande parte de KL, Penang é uma cidade em que se pode andar a pé e esse é um benefício considerável para as galerias, lojas e amantes de arquitetura. "Graças também à nomeação como Patrimônio Mundial, Penang realmente está começando a decolar nas artes", acrescenta. "Os jovens estão dando vazão a todos os tipos de criatividade."

Nomeada Patrimônio Mundial pela unesco desde 2008, George Town, em Penang, está rapidamente se tornando um centro vibrante para a mistura de artes contemporâneas e culturas tradicionais da Malásia.

Mais tarde, na mesma noite, essa criatividade se tornou um passeio fantasmagórico em um ensaio do "River Project", uma peça ao ar livre que faz parte do festival de artes de julho e é encenada ao lado do Canal Prangin, conhecido por estar totalmente poluído. Acompanhado pelo advogado e ativista de artes Lee Khai, meu guia indispensável na vida cultural de Penang, fico pasmo com a aproximação de uma criatura em forma de ovo, envolta em garrafas de plástico e iluminada por fios de luzes coloridas. Uma mulher se esquiva dessa crisálida iluminada e depois arrasta as garrafas atrás dela enquanto cantores lamentam o sufocamento do canal. Outros atores realizam acrobacias de ginástica ao redor deles e depois se dirigem a um armazém coberto que, segundo Lee, tinha sido um mercado de produtos e frutos do mar, mas que está abandonado há mais de dez anos. "A cidade ainda precisa descobrir o que fazer com ele", lamenta, balançando a cabeça em frustração. Enquanto isso, os acrobatas se tornam mercadores, anunciando melodicamente os preços de seus produtos para evocar uma época passada. Onde havia vida e comércio próspero, hoje é ruína vazia, entoa um deles.

Os atores levam o público de volta para fora para que todos vejam um artista segurando a parede do canal meio metro acima da lama fedorenta enquanto caminha cuidadosamente como se fosse um alpinista ao longo de uma borda estreita. Mal consigo olhar, mas olho. Acima do louco, uma atriz declama com indignação fervente: "Quanto tempo após as artérias serem obstruídas pode o coração de uma ilha sobreviver?" Por último, um músico coloca nos lábios um didgeridoo longo feito de tubo de pvc e começa a tocar um lamento para fechar o espetáculo.

Lee lê meus pensamentos. "Isso é agitprop, não Shakespeare, mas o estímulo por trás da peça é muito importante", argumenta apaixonadamente após a apresentação. "Precisamos chamar a atenção para esse tipo de poluição. A situação é realmente desesperadora", continua. "Às vezes, a arte tem de ser política para que algo seja feito."

Graham Chandler

Além de contribuir regularmente com a Saudi Aramco World, com sede em Paris, Richard Covington (richardpeacecovington@gmail.com) escreve sobre cultura, história, ciência e arte para Smithsonian, The International Herald Tribune, U.S. News & World Report e The Sunday Times de Londres.

Graham Chandler

Jimin Lai (www.jiminlai.com) é fotojornalista há quase duas décadas, passando boa parte desse tempo viajando pela Ásia para a Reuters e a Agence France-Presse para cobrir conflitos, política, esportes e assuntos do cotidiano. Mora em Kuala Lumpur e fotografa para clientes editoriais, corporativos e particulares.

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