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| Cortesia da JWM productions |
| Muçulmanos albaneses ajudaram cerca de 2.500 judeus a evitarem a deportação nazista, e os retratos que Norman Gershman, fotógrafo baseado nos EUA, registrou dos albaneses envolvidos e de seus descendentes deram origem ao filme A Promessa (The Promise). "Pelo que fizeram, as pessoas deste pequeno país têm algo a ensinar para o mundo", afirma Gershman. |
É uma pena, pois ambos os filmes contam histórias fascinantes, cheias de suspense e comoventes e, ao mesmo tempo, realizam um serviço público ao documentarem histórias virtualmente desconhecidas, protagonizadas por heróis inesperados e inesquecíveis.
Inimiga do Reich: A história de Noor Inayat Khan (Enemy of the Reich: The Noor Inayat Khan Story) é um docudrama que aborda a vida de uma mulher indiano-americana que se tornou uma das mais improváveis, porém, mais eficientes espiãs da Paris ocupada pelos nazistas. Besa: A Promessa (Besa: The Promise) é um documentário que conta a história de como muitos albaneses, ao aderirem a um antigo código de honra que os leva a abrigar estranhos com necessidades, ofereceram refúgio a pelo menos 2.500 judeus.
Ainda que as personagens sejam provenientes de contextos muito distintos e que os filmes empreguem narrativas em estilos diferentes, juntos, eles abrem novos caminhos ao retratarem histórias de heróis muçulmanos durante a 2ª Guerra Mundial.
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| Cortesia da unity productions foundation |
| Em Inimiga do Reich, Grace Srinivasan interpreta Noor Inayat Khan, mulher que disfarçou seu transmissor de rádio britânico com uma maleta de máquina de escrever enquanto circulava pela Paris ocupada pelos nazistas, às vezes diariamente, por cerca de quatro meses. |
Como o Holocausto foi esmagadoramente empreendido na Europa dominada por cristãos, é fácil esquecer que os nazistas e seus aliados estenderam seu alcance até o Norte da África e pesadamente sobre as regiões dos Bálcãs muçulmano da Europa, e que o povo dessas terras também ofereceu resistência e resgate.
"A cada etapa do nazismo, de Vichy e da perseguição fascista de judeus em terras árabes, e em todos os lugares onde ela ocorreu, os árabes ajudaram os judeus", escreveu Robert Satloff, historiador e diretor executivo do Instituto Washington de Políticas para o Oriente Próximo, em seu livro de 2007 Entre os justos: Histórias perdidas do longo alcance do Holocausto em terras árabes (Among the Righteous: Lost Stories from the Holocaust’s Long Reach into Arab Lands), um dos poucos exames históricos sobre o tema. Satloff descobriu que, embora os habitantes das terras árabes ocupadas pelo nazismo tenham colaborado ou apoiado nas mesmas proporções que europeus submetidos à ocupação nazista, muitos árabes e muçulmanos manifestaram-se contra a perseguição e tomaram posições públicas em favor dos judeus, enquanto outros se recusaram a colaborar com os esforços de perseguição. "Alguns árabes partilhavam do destino de judeus e, por meio dessa experiência, forjaram um vínculo único de camaradagem. E houve ocasiões em que certos árabes decidiram fazer mais do que apenas oferecer apoio moral aos judeus. Eles corajosamente salvaram vidas de judeus, ao mesmo tempo em que arriscavam as suas próprias vidas no processo."
As raízes de Inimiga do Reich nos levam a Alex Kronemer e Michael Wolfe, fundadores e produtores da Unity Productions Foundation (UPF). Os dois, praticamente em uma mesma semana de 2010, foram abordados por diferentes sobreviventes do Holocausto da França, todos com histórias sobre como receberam ajuda de muçulmanos. As histórias foram reveladoras para os dois produtores, já que nenhum deles tinha ouvido falar sobre heroísmo muçulmano durante a guerra.
"Ao termos tido ambos essas conversas em um espaço tão curto de tempo, sentimos que o universo estava querendo nos transmitir uma mensagem e decidimos investigar mais sobre o assunto", declara Kronemer.
Logo, eles descobriram mais histórias. Por exemplo, tanto soldados indianos como argelinos lutaram na Europa ao lado dos ingleses e franceses, respectivamente, enquanto médicos do franco-muçulmano Hospital Avicenna em Bobigny, França, cuidaram de norte-americanos e outros soldados aliados. O cantor de cabaré francês Simon Halali foi um dentre tantos judeus que receberam refúgio na Grande Mesquita de Paris, onde muçulmanos lhe providenciaram documentos falsos que alteravam seu primeiro nome para Salim e o identificavam como muçulmano, uma história relembrada no filme de 2012 Les Hommes Libres (Os Homens Livres), que segue disponível somente em francês.
Apesar dos cineastas terem descoberto diversas histórias que poderiam ter inspirado grandes documentários, eles perseguiram a história de Noor Inayat Khan devido a sua profunda espiritualidade e posição como mulher.
"O que a tornou convincente foi sua humanidade inclusiva", diz Kronemer. "A ideologia nazista opôs-se a tudo em que ela acreditava, e ela não poderia ficar apenas assistindo."
Filmado principalmente em Baltimore e Washington, D.C. com atores da cena local, Inimiga do Reich conta a história de Khan, intercalando trechos com estudiosos e parentes. A narração é realizada pela atriz Helen Mirren, vencedora do Oscar e de tantos outros prêmios do cinema.
"Eu quis retratá-la por ter sido uma mulher tão forte e que demonstrou tamanha bravura e coragem, mas ela era também uma jovem em circunstâncias nada comuns", diz Grace Srinivasan, atriz que interpreta Khan. "Como eu, ela era metade indiana, metade norte-americana, e não é sempre que leio ou ouço histórias sobre pessoas que se pareçam comigo. Sua história merecia ser contada, e fiquei muito animada por fazer parte disso."
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| Cortesia da Cortesia da JWM
productionsproductions |
| Rexhep Hoxha tinha 17 anos quando seu pai abrigou a família Aladjem seguindo a besa albanesa, ou promessa, de abrigar estranhos em situação de perigo. No filme, ele visita a sinagoga abandonada na búlgara Vidim, cidade natal dos Aladjems. |
O pai de Khan, Hazrat Inayat Khan, era um pregador e músico muçulmano sufi da Índia que, nos anos que antecederam a 1ª Guerra Mundial, viajou para os Estados Unidos para pregar e ensinar. Lá, ele conheceu Ora Baker, nascida em Albuquerque, cidade do estado do Novo México. Eles se casaram e mudaram para Moscou, onde Noor nasceu em 1914. Pouco depois, a família se mudou para Londres e, depois para Paris, onde um rico patrono lhes comprou uma casa de campo nos arredores da cidade que ficou conhecida como Fazal Manzil, ou Casa de Bênçãos. Os visitantes iam até o lugar para escutar seu pai, e a jovem Noor foi influenciada por todo esse contexto, que ela chamou de o período e lugar mais idílicos de sua vida. Mas isso terminou tragicamente quando seu pai faleceu de forma inesperada. Sua mãe ficou paralisada pela tristeza, e Noor passou a cuidar de seus irmãos mais novos.
Ela foi estudar em Sorbonne e tornou-se uma bem-sucedida escritora infantil, publicando em revistas e em uma coleção de histórias curtas voltadas para esse público. Em 1940, antes da invasão nazista à França, Khan e sua família fugiram para a Inglaterra.
Lá, ela se uniu à Força Aérea Auxiliar de Mulheres (Women’s Auxiliary Air Force) como operadora de rádio sem fio. Após a ocupação da França, ela foi recrutada pelo Executivo de Operações Especiais (SOE, Special Operations Executive), uma unidade secreta criada por Winston Churchill, encarregada de ficar atrás das linhas inimigas com o objetivo de ajudar os combatentes da Resistência local.
Os registros de treinamento britânicos descreveram Khan como idealista, característica que seus superiores viam como uma deficiência. Por exemplo, ela lhes disse que se recusava a mentir. O documentário também sugere que os relatórios negativos podem ter sido resultado de preconceito contra sua pele escura e fé islâmica. Mas suas habilidades com o rádio eram excelentes, e o SOE necessitava desesperadamente de operadores de rádio na França, onde eram descobertos com uma facilidade cruel pelos caminhões de rastreamento nazistas. O tempo médio de sobrevivência nessa atividade era de seis semanas.
Em 1943, Khan foi levada de avião a uma remota pista de pouso rural e conduzida clandestinamente a Paris carregando um rádio dentro de uma maleta muito parecida com uma máquina de escrever de secretária. Sua tarefa era apoiar uma rede secreta da Resistência chamada Prosper com comunicações entre Londres e espiões locais. Mas a Prosper foi logo traída, e a maioria de seus agentes levada à prisão. Khan pôde escapar com dificuldade da captura por 16 semanas, mudando constantemente de localização e ainda enviando mensagens a Londres, mesmo sob o rastreamento dos detectores de rádio da Gestapo. Em outubro de 1943, ela foi capturada, aprisionada e finalmente enviada ao campo de concentração alemão de Dachau, onde foi executada em setembro de 1944.
"Para mim, foi um desafio equilibrar a luz e a escuridão presentes na história de Noor", afirma Srinivasan. "Ela adorava fantasia, faz de conta, poesia e arte, e praticamente viveu nesse mundo imaginário durante sua infância. Esse seu lado é muito diferente da pessoa forte que deve ter sido quando partiu para a França sabendo que provavelmente morreria lá e por nunca ter desistido, apesar das circunstâncias horríveis. Para mim, foi interessante encontrar uma forma de mostrar sua alma em camadas, e o documentário aborda tanto seu lado fantástico como o pragmático."
Besa – uma palavra traduzida literalmente como "promessa", mas que possui um significado mais profundo, começou com o desejo do fotógrafo norte-americano Norman Gershman de documentar o legado dos albaneses que abrigaram judeus durante a 2ª Guerra Mundial. Em 2002, em sua primeira viagem à Albânia, que hoje é aproximadamente 70% muçulmana e 30% cristã, ele ficou surpreso com o que encontrou: não apenas algumas pessoas que foram uma exceção em um mar de espectadores passivos, mas um país inteiro que atuou para salvar os judeus segundo o código de honra tradicional conhecido como Besa, o qual exige o acolhimento de estranhos em situações de perigo que busquem abrigo.
Quando Gershman mostrou suas fotos a seu amigo e produtor cinematográfico Jason Williams, fundador da JWM Productions e especialista em programação cultural, a dupla concordou que havia ali um filme que poderia ser realizado.
"Este filme fornece o testamento muçulmano de que o Holocausto aconteceu e, igualmente significativo, conta a história de muçulmanos que adotaram a atitude correta em relação à ameaça em um momento em que muitos cristãos não o fizeram", declara Williams.
"Pelo que fizeram, as pessoas deste pequeno país têm algo a ensinar para o mundo", afirma Gershman no filme. De fato, a Albânia é o único país que possuía mais judeus após o fim da 2ª Guerra Mundial do que antes de sua eclosão.
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| Cortesia da unity productions foundation |
| Fluente em francês e criada como uma pacifista em uma família muçulmana profundamente espiritual, Khan aprendeu suas habilidades com o rádio após unir-se à Força Aérea Auxiliar de Mulheres britânica. Como operadora de rádio clandestina na Paris ocupada, ela era muitas vezes a única ligação entre a Grã-Bretanha e a Resistência francesa. |
No entanto, o documentário é mais do que uma recordação do passado. Ele entrelaça um mistério de suspense e uma busca que se desenrola no presente. Rexhep Hoxha tinha 17 anos quando seu pai, Rifat, um confeiteiro "nascido e morto na pobreza", lhe disse pela primeira vez como a família judia de Nissim e Sarah Aladjem, juntamente com seu filho Aron de 12 anos, chegou à sua loja em busca de ajuda em um dos ‘ids (feriados) de 1943. A família escapou da Bulgária aliada aos países do Eixo, que havia promulgado diversas leis antissemitas. Naquele momento, a Albânia estava ocupada por italianos, que, apesar de aliados à Alemanha nazista, permitiam aos judeus uma relativa liberdade. Rifat fechou imediatamente sua loja e levou os Aladjems à sua casa, onde lhes concedeu um quarto.
Alguns meses mais tarde, os nazistas avançaram para a Albânia, e a vida tornou-se perigosa para a família judia. Eles escaparam em 1944, e Nissim confiou a Rifat, àquela altura um amigo íntimo, três livros de oração que eram herança de família e os quais ele pretendia recuperar quando a Albânia fosse libertada.
Mas depois da guerra, a Albânia foi submetida ao regime comunista mais ferrenho do mundo e tornou-se um dos países mais fechados do planeta. Somente após a queda comunista em 1990, Rexhep teve a oportunidade de cumprir o desejo de seu pai de que os livros fossem finalmente devolvidos a seus legítimos proprietários, o que uniu novamente as duas famílias mais de 70 anos depois.
Os albaneses que proporcionaram refúgio a judeus estendiam-se desde os camponeses mais pobres até o rei do país, Zog I, único monarca muçulmano da Europa, que abriu em 1939 as fronteiras de seu país a todos os judeus que quisessem entrar e concedeu pelo menos 400 passaportes e um número incontável de vistos. Entre aqueles que cruzaram a fronteira estava a família de Johanna Neumann, proveniente da alemã Hamburgo.
Primeiramente, eles permaneceram com uma família camponesa que vivia fora de Durres, cidade costeira do mar Adriático, mas após a chegada dos nazistas, mudaram-se para a casa da família de Njazi Pilku, um engenheiro albanês que falava alemão e havia estudado na Alemanha, país de origem de sua esposa Liza. Sempre que os nazistas iam à sua porta para inquirir quem eram os Neumanns, os Pilkus os faziam passar como primos da Alemanha.
"A hospitalidade, o calor humano, era uma coisa maravilhosa" diz Neumann, que agora atua como associada benemérita do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, localizado em Washington, D.C. "Aquela família se expôs a um enorme risco. Se os nazistas tivessem descoberto que eles nos escondiam, seríamos todos mortos ali mesmo."
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| Cortesia da unity productions foundation |
| Traída por um agente duplo, ela foi mantida prisioneira por quase um ano e, então, executada no campo de concentração de Dachau. |
Para homenagear ainda mais sua coragem, Neumann indicou em 1992 a inclusão de Njazi Pilku no Museu do Holocausto de Yad Vashem, em Jerusalém, onde um salão dedicado reverencia "Os justos entre as nações", não judeus que socorreram judeus durante o Holocausto: Pilku é um dos 69 albaneses homenageados do local.
Os albaneses protegeram também italianos que embora tenham ocupado seu país, tornaram-se eles próprios alvos nazistas depois que a Itália se rendeu aos Aliados. Neumann diz que os Roma (ciganos) também viveram na Albânia, e que também foram protegidos. "Até onde eu sei, eles não foram deportados", ela declara.
"Nosso tempo era curto", diz Williams ao notar que já morreram pelo menos 18 das 24 pessoas entrevistadas para o documentário, entre as que receberam e ofereceram ajuda. "É por isso que este trabalho é tão importante. Se não tivéssemos realizado este filme, esse registro não existiria. Não haveria nenhuma história. Essa verdade nunca teria sido revelada", ele acrescenta.
Hoxha também se preocupa com as muitas histórias que serão ou já foram perdidas.
"Muitos daqueles que salvaram tantas pessoas já não estão mais vivos hoje. Certamente, muitas histórias permanecerão ocultas para sempre", escreveu em um e-mail. "Eu mesmo aprendi muito mais com os cineastas do que com o meu próprio pai. Isso se deve também pela modéstia que caracterizou aquela geração."
Lançado em 2012, Besa segue agradando em festivais de cinema e venceu o Prêmio do Grande Júri do Festival de Nashville de 2014, além de prêmios de melhor documentário em quatro festivais ao longo de 2013. No entanto, o sucesso comercial continua deixando a desejar, e os cineastas e alguns daqueles que aparecem na obra estão preocupados que a mensagem do filme não chegue ao público em número suficiente.
"Este é meu objetivo de vida: mostrar ao mundo o que essas pessoas fizeram e mostrar que a fobia existente contra muçulmanos é resultado das pessoas não conhecerem e não refletirem", declara Neumann.
Até agora, Inimiga do Reich foi exibido em cerca de 25 cidades, principalmente em salas de casas de arte, universidades e museus, mas estreará na pbs na terça-feira, 9 de setembro.
Os cineastas por trás desses documentários também querem ver suas obras distribuídas em escolas para que possam ser utilizadas como material educativo.
"Acreditamos que o diálogo e o uso do cinema são capazes de unir as pessoas", afirmou Kronemer, coprodutor de Inimiga do Reich. "E acreditamos que este filme pode realmente contribuir para a educação de futuras gerações de estudantes e para a melhoria das relações entre muçulmanos e judeus."
www.enemyofthereich.com
www.besathepromise.com
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Omar Sacirbey (osacirbey@hotmail.com) é um correspondente do Religion News Service e também possui obras escritas sobre cultura, negócios e política para The Boston Globe, The New York Times, Newsweek International e outras publicações. |