Volume 65, Número 5Setembro/Outubro de 2014

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Desde a África do Norte, Ibéria e através do Oriente Médio até a Ásia Central e noroeste da China, estes são os qanats, os aquedutos subterrâneos. Conhecido por diferentes nomes em lugares distintos, todos eles fazem a mesma coisa: canalizam a água preciosa de nascentes, lagos, córregos e aquíferos para campos de baixa altitude em planícies áridas. Cavados a mão e exigindo manutenção corrente e ativa, eles datam de 3 mil anos atrás, e muitos ainda estão abastecendo fazendas e fornecendo água potável. 

O cultivo de alimentos em regiões áridas tem sido sempre um trabalho difícil e arriscado. Desde que os seres humanos descobriram como cultivar plantações há mais de 10 mil anos, um dos maiores problemas que os agricultores têm enfrentado em terrenos com chuvas limitadas tem sido o de obter água suficiente para os seus sulcos.

Em algumas terras, as distantes chuvas sazonais e a neve derretida das montanhas inundam os rios, e o escoamento cobre as áreas de cultivo. Essas inundações aconteceram ao longo do Nilo no Egito há milênios, até que o transporte fluvial foi domesticado nos tempos modernos pela represa de Assuã. Inundações ribeirinhas, da mesma forma, alimentaram os terrenos agrícolas mesopotâmicos ao longo dos rios Tigre e Eufrates. Em ambas as regiões, os engenheiros construíram sistemas elaborados de canais e bacias para regular e economizar água. 

No entanto, estas e outras terras quentes e secas, canais e bacias, todas enfrentam um problema comum e elementar: a evaporação. O sol escaldante esgota as águas da superfície com velocidade impiedosa. A água é tão escassa e preciosa que os engenheiros elaboraram uma solução inteligente e trabalhosa: desviar a água para um túnel subterrâneo inclinado permitindo que a gravidade a mova da fonte para as sedentas terras agrícolas. 

Porém não se sabe quem cavou os primeiros qanats. Embora alguns pesquisadores acreditem que eles possam ter se originado nas montanhas da Armênia atual, ou talvez nas montanhas de Omã, a hipótese mais aceita aponta para a área comumente referida hoje como o Curdistão no noroeste do Irã, bem como nas partes adjacentes da Turquia e Iraque no início do primeiro milênio AEC, onde sistemas hídricos subterrâneos foram encontrados nas montanhas. Os mineiros antigos também trabalharam nessas montanhas e deveriam ter muito conhecimento sobre a construção de túneis. O geógrafo e pesquisador dos primeiros sistemas hídricos, Dale Lightfoot, da Oklahoma State University afirma que foi a partir dali que a tecnologia para esses sistemas de irrigação espalhados tanto no Oriente como no Ocidente se alastraram para terras que hoje abrigam cerca de 35 países.  

Chamados de qanat (canal) nas terras árabes, esses sistemas são conhecidos como karez na Pérsia, falaj em Omã e Emirados Árabes, foggara na maior parte da África do Norte, com exceção de Marrocos, onde são chamados de khettara.No Irã e através da Ásia Central atualmente, este sistema de gestão da água é chamado com frequência por seu nome original, karez (ou kariz), que tecnicamente é uma palavra arquitetônica aplicada a pequenos túneis abastecedores que fluem para aquedutos subterrâneos maiores. Os países árabes, incluindo Iraque, Síria, Jordânia e Arábia Saudita, os chamam de qanat (canal), e esta palavra árabe tornou-se o termo genérico mais comum para este tipo de rede de irrigação de túneis. Em Omã e Emirados Árabes Unidos, falaj, é o termo utilizado, o que significa "divisão" ou "arranjo". Nos países da África do Norte tais como a Argélia, Tunísia e Líbia, foggara é o nome comum; em Marrocos, khettara. E na extremidade oriental da sua difusão, no noroeste da China, entre turcos uigures o nome é novamente karez, um reflexo de suas raízes persas importadas através da Rota da Seda.

No Irã, a maioria dos karez se estendem de 5 a 10 quilômetros, porém alguns ultrapassam 70 quilômetros. Talvez cerca de vinte mil permaneçam em uso, totalizando cerca de 275 mil quilômetros. Muitos deles estão no grande planalto iraniano, uma característica geológica que se estende por cerca de 2 mil quilômetros a partir das montanhas Zagros, a oeste, até o vale do rio Indus, ao leste, com uma precipitação média de apenas cerca de 15 cm a 25 cm a cada ano. Ainda em meados do século XX, os karez forneceram até três quartos de todo o abastecimento de água do Irã.  

Em todos os lugares, a seção transversal de um túnel qanat possui geralmente cerca de 1,5 m de altura e 1 m de largura, apenas o suficiente para ser cavado e mantido com as mãos. Os poços verticais são geralmente separados com cerca de 50 a 100 metros de distância entre si e se conectam ao túnel aquífero em profundidades de 10 até 100 metros. 

Os qanats modernos ainda são construídos muito como aqueles da antiguidade: Escavadores especializados, chamados muqanni em árabe (canalizadores), escavam em primeiro lugar os poços verticais, transportando a terra e as rochas em baldes até a superfície. Com sorte, eles atingem a umidade em cerca de 15 metros, mas em certas ocasiões precisam cavar bem mais. Eventualmente eles começam a trabalhar nos poços horizontais, cuja inclinação é determinada por um topógrafo.  

Às vezes, quando a qualidade do solo é instável, os muqannis podem reforçar o poço, o túnel ou ambos, com barro ou pedra. É um trabalho arriscado. Os muqanni por tradição fazem uma oração antes de entrar em um poço e alguns se recusam a descer em determinados dias que por algum motivo consideram dia de azar.

Um dos primeiros registros escritos da construção de um qanat remonta ao século VIII AEC, encontrado na Assíria. O registro informava que o rei assírio Sargão II, durante uma campanha militar na Pérsia, documentou ter encontrado ali um sistema hídrico subterrâneo perto do Lago Urmia, no noroeste. O filho de Sargão, Senaqueribe, que governou no século VII AEC, adotou técnicas persas para construir um karez perto de sua capital Nínive, e também na cidade de Arbela. 

Em 525 AEC, os Persas Aquemênidas conquistaram o Egito faraônico. Alguns anos mais tarde, o rei persa, Dario i, pediu ao explorador grego cário Cílax de Carianda para construir um sistema karez de 160 quilômetros a oeste do Vale do Nilo através do deserto líbio até o Oásis de Kharga, que foi uma das principais paradas da lucrativa rota comercial de caravanas conhecida como darb al-arba‘in (A rota dos quarenta dias). O falecido estudioso H.E. Wulff registrou em 1968 na revista Scientific American que "resquícios do qanat ainda estão em funcionamento" e especulou que esta tecnologia "pode muito bem ter sido parcialmente responsável pela simpatia dos egípcios por seu conquistador e a outorga do título de Faraó em Dario".

Mais tarde, o comércio e a conquista serviram como um catalisador para a expansão da tecnologia de qanats tanto no Oriente como no Ocidente. Engenheiros civis romanos utilizaram os qanats em terras conquistadas onde a sua conhecida tecnologia de aquedutos provou-se inadequada. Por exemplo, na Jordânia, o então chamado Aqueduto de Gadara, que é uma estrutura romana desenterrada há cerca de uma década, não é um verdadeiro aqueduto, mas sim um túnel de água subterrânea (um qanat) e com 170 quilômetros, é o maior túnel do tipo da antiguidade. O sistema Gadara, também conhecido como qanat firaun ou "Qanat do Faraó," foi construído após uma visita do imperador romano Adriano por volta de 130 EC, e em parte segue o curso de um túnel helenístico anterior. A versão romana parece não ter sido concluída, embora ele tenha sido colocado em serviço, em partes. 

Na África do Norte, os primeiros qanats datam da segunda metade do primeiro milênio AEC. Lá, os arqueólogos e outros especialistas registram a migração da tecnologia do Egito para a região do Fezã do sudoeste da Líbia, que era habitada pelos garamantes e que a partir daí, se espalhou para o leste em todo o Saara até a Argélia e Marrocos de hoje. 

No oásis da Argélia, os qanats, que se tornaram conhecidos como foggaras, permitiram o desenvolvimento de novas rotas de caravanas norte a sul que construíram as relações comerciais com a África subsaariana. O arqueólogo Andrew Wilson, da Oxford University, que tem estudado os foggaras do centro-oeste do Saara, diz que os oásis "são hoje as zonas de foggara mais desenvolvidas utilizadas em qualquer lugar fora do Irã". Wilson observa que, enquanto acadêmicos tradicionais datam o estabelecimento do foggara somente a partir do século XI EC, pode haver "motivos para crer que eles existem desde o século VII, se não antes" com base nas "fortes semelhanças na construção e nomenclatura", entre os foggaras argelinos e os garamantes na Líbia. 

Timimoun é uma pequena cidade oásis na região desértica Gourara na Argélia, e é conhecida por seus edifícios vermelho ocre, bem como o importante sistema foggara ainda em funcionamento, que irriga as tamareiras e outras plantações. Na última contagem formal em 2001, os foggaras aqui totalizavam cerca de 250, mas como os agricultores locais cada vez mais se voltaram a poços bombeados eletricamente, os foggaras estão lentamente secando. Os poços esgotam o aquífero, e ao contrário de foggaras, os poços podem ser perfurados cada vez mais fundo. Essa história se reproduz em toda a Argélia, onde levantamentos sobre recursos hídricos pelas Nações Unidas, registraram uma diminuição de cerca de 1.400 foggaras ativos no passado recente para cerca de 900 atualmente. Embora tenha havido esforços recentes para reabilitar alguns foggaras que podem datar de antes do Islã no século VII, a pressão sobre os agricultores para mudarem para métodos mais modernos de abastecimento de água é implacável.

A expansão ocidental do Islamismo e da civilização árabe nos séculos VII e VIII EC, em toda a África do Norte e para o norte através do Mediterrâneo na Península Ibérica, resultou na segunda grande difusão da tecnologia qanat após a era garamante. Construções de qanats foram realizadas no leste do Mediterrâneo, em Chipre e no oeste nas Ilhas Canárias. O geógrafo Paul Ward English da University of Texas em Austin constata que os qanats também se espalharam pelo Novo Mundo, onde foram construídos de acordo com as conquistas espanholas no México em Parrás, Canyon Huasteca, Tecamachalco e Tehuacán. 

Na outra direção, na extremidade leste da sua propagação, observa Paul, o karez do Irã se alastrou para o Afeganistão, colonizações oásis da Rota de Seda da Ásia Central e no oeste da China, "embora não se saiba se esta difusão tenha ocorrido sob os Aquemênidas ou em alguma dinastia Persa posterior". 

Em Xinjiang, a cidade oásis de Turpan (ou Turfan) possui uma história venerável como importante parada nas rotas comerciais do Ocidente. Rodeada por montanhas e ainda situada abaixo do nível do mar, a cidade é construída em uma das mais profundas depressões interiores do mundo, a Depressão de Turpan. Isso, ao que parece, é um cenário ideal para os túneis de água subterrânea movidos pela gravidade, alimentados por escoamentos. 

Os verões em Turpan são escaldantes e ventos secos levam a areia do deserto próximo Taklamakan. Os karez tem fornecido água para os moradores e também para as caravanas por aqui, desde a Dinastia Han Ocidental há mais de 2 mil anos. Turpan teve na realidade crescimento nestes sistemas de abastecimento de água desde o século XIX, o que é quase uma situação única entre todas as áreas que usam qanat no mundo.

Em 1845, o famoso oficial chinês e estudioso Lin Zexu, considerado um modelo de governança moral na China, foi feito de bode expiatório para duas bem sucedidas incursões militares britânicas ao longo da costa chinesa, e foi banido para a distante Xinjiang. Enquanto vivia no noroeste, Lin se familiarizou com a tecnologia karez e promoveu a sua expansão para além de Turpan, ganhando, em tempo, o apoio do governo central. 

Em 1944, a região de Turpan contava com aproximadamente 379 karez, e por volta de 1952, haviam 800 sistemas hídricos subterrâneos na depressão. Seu comprimento total combinado de 2.500 quilômetros era equivalente ao Grande Canal de Pequim até Hangzhou, a mais longa via fluvial artificial do mundo. Hoje a distância total dobrou e há bem mais de 1.000 karez na Depressão de Turpan.

Da Ibéria para a China, os qanats tornaram possível a agricultura e, de fato, a civilização, em muitas zonas áridas. Conforme concluído por Wulff em 1968, "as obras dos qanats do Irã foram construídas em uma escala que rivalizavam com os grandes aquedutos do Império Romano. Considerando que os aquedutos romanos agora são apenas uma curiosidade histórica, a "tecnologia qanat" ainda é utilizada após 3 mil anos e tem sido continuamente ampliada". 

Embora os qanats no Irã e África do Norte estão em declínio, eles continuam a desempenhar papéis significativos, tal como no noroeste da China onde eles crescem em tamanho e número, o que diz muito sobre o valor intemporal de se manter a água preciosa em segurança, sob o solo e longe do sol.  

Robert W. Lebling Robert W. Lebling (lebling@yahoo.com) é um escritor americano, editor e especialista em comunicação que vive e trabalha na Arábia Saudita. Ele é autor de "Lendas dos espíritos do fogo: gênios da Árabia a Zanzibar (Legends of the Fire Spirits: Jinn and Genies from Arabia to Zanzibar) (I.B. Tauris, 2010 e 2014), e é coautor, juntamente com Donna Pepperdine, de Remédios naturais da arábia (Natural Remedies of Arabia) (Stacey International, 2006). Ele contribui regularmente para a Saudi Aramco World.
George Steinmetz George Steinmetz (www.GeorgeSteinmetz.com) contribui regularmente para as revistas National Geographic e GEO há mais de 25 anos. Ele já ganhou vários prêmios de fotografia, incluindo dois prêmios de primeiro lugar pela World Press Photo.


 

Este artigo está disponível na página 32 da edição impressa da Saudi Aramco World.

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